BREVE COMENTÁRIO EXPLICATIVO SOBRE JOÃO 1:1 b-c — BRÍCIO LUBE



Postulamos que o Verbo é um dos centros de autoconsciência em Deus, cuja existência deve transcender o tempo. Sua preexistência eterna é explícita nas palavras do apóstolo João (João 1:1; 1João 1:2).
A expressão “ὁ λόγος” transmite a idéia da própria fala ou autoexpressão divina (cf. Sl 19.1-4). O relato da Criação em Gênesis fornece testemunho suficiente da eficácia da palavra de Deus: ele fala e as coisas passam a existir (Gn 1.3,9; cf. Gn 1.11,15,24,29,30). Tanto os salmistas quanto os profetas retratam a palavra de Deus com termos que beiram a personificação (Sl 33.6; 107.20; 147.15,18; Is 55.10,11), mas só João afirma que essa Palavra, ou Verbo, apareceu na história do tempo e do espaço como uma pessoa de verdade: Jesus Cristo (Jo 1.14,17).
(b) “O Verbo estava com o Deus”. A preposição “com” (gr. pros) implica em relação e distinção. Usada com o acusativo significa não somente coexistência mas intercomunicação direta. A Pessoa descrita como “Deus” a qual o Verbo estava (Gr., “ton theon”) é o Pai, conforme aludido por Jesus em sua oração sacerdotal (em João 17:3), quando refere-se ao mesmo como “o único Deus (Gr., “ton theon”) Verdadeiro”, em contraste com o politeísmo pagão, o naturalismo filosófico e o panteísmo místico existente no mundo de procedência maligna, do qual pede para que Ele os livre em sua súplica (cf. Jo.17:15).
Biblicamente falando, no Novo Testamento, a palavra “Deus” (ho theos) tipicamente se refere ao Pai. É por isso que você não encontra autores do Novo Testamento dizendo muitas vezes que Jesus é "ho theos" - Deus. Em vez disso, eles tomaram a palavra do Antigo Testamento para Deus - o Senhor (kyrios em grego) - aplicando esse termo a Jesus e depois citaram as Escrituras do Antigo Testamento sobre o Senhor com referência a Jesus. Por exemplo, Paulo diz que se você confessar com seus lábios que Jesus é o Senhor (kurios) e crer em seu coração que Deus o ressuscitou dos mortos, você será salvo; pois todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo (citando lá uma passagem do Antigo Testamento sobre o Senhor, Joel 2:32, e aplicando-o a Jesus no NT em Rm 10:13). Assim, os autores do Novo Testamento referem-se ao Pai tipicamente como "o Deus" e se referem a Jesus como "o Senhor", que é o nome do Antigo Testamento para Deus. Eles tentaram, de todas as formas, expressar a plena divindade de Cristo e, ao mesmo tempo, não dizer que Jesus é a mesma pessoa que o Pai. Assim, você obtém essas circunlóquias estranhas como 1Coríntios 8:6: “Para nós há um só Deus, o Pai, e um só Senhor, Jesus Cristo.”
(c) “O Verbo era Deus”. Dito isso, não se deve concluir que João esteja afirmando que o Verbo era a mesma pessoa descrita como Deus - a qual ele estava -, entretanto, significa mais do que Este ser apenas "um deus distinto ontologicamente daquele” (como sugere supostas "traduções"). O Verbo nos é apresentado como sendo Deus qualitativamente, e em virtude de tal certeza, consideramos como afirmou o Erudito Daniel B. Wallace: "O que Deus Era o Verbo Era" [2]. Ora, está claro que isso não significa que exista mais que um Deus, pois afirmar isso seria ir contra o que O Mesmo em Sua Palavra afirma: "antes de mim nenhum Deus foi formado e depois de mim não haverá nenhum" (Is.43:10; Os.13:4), logo, mediante revelação progressiva, nos é evidente a existência de pluralidade de pessoas na singularidade do Deus das Escrituras, e isso, a partir da mesma. Ademais, não encontramos sustentabilidade gramatical (considerando ambiente textual) para tal “tradução defendida”, a saber, “e o verbo era um deus”.
Dizemos isso porque há duas maneiras possíveis que João poderia ter utilizado na escrita caso sua intenção fosse dizer que o Verbo era "um deus" (o que ele não fez). Uma com um numeral e a outra é pós verbal:
 i) και ο λόγος ην θεος; 
ii) και ο λόγος ην εις Θεός. 
O que nós não encontramos em Jo. 1:1c, justamente por que o Apóstolo não quis dizer isso, ao contrário, ele enfatizou a ousia do Verbo, i.é. sua essência. Só existe um Ser que possui natureza divina — o único Deus. 
D.A. Carson em seu comentário desse evangelho afirma que: "ainda que um grande número de escritores argumentem que como theos, ‘Deus’, não tem artigo, João não deve estar se referindo a Deus como um ser específico, mas apenas às qualidades de ‘divindade’. A Palavra, eles dizem, não era Deus, mas "divina". Isso não é o bastante.  Há uma palavra perfeitamente adequada em grego para ‘divina’, e esta é "theios" (o que não aparece no verso). Mais importante, há muitas passagens no Novo Testamento em que o substantivo predicado não tem artigo, e mesmo assim é específico. Mesmo nesse capítulo, “tu és o Rei de Israel!” (1.49), no original não há artigo antes de ‘Rei’ (cf. também Jo 8.39; 17.17; Rm 14.17; Gl 4.25; Ap 1.20). Demonstrou-se que, nessa construção, é comum para um substantivo predicado finito ser colocado antes do verbo, ser anartro (isto é, sem artigo). De fato, o efeito de ordenar as palavras dessa forma é enfatizar ‘Deus’, como se o escritor estivesse dizendo: ‘e a Palavra era Deus na realidade'."
Os verbos ser e estar (com relação ao ‘logos’ e ‘theos'), usados no primeiro versículo (Jo. 1:1), descrevem uma ação contínua, sem levar em consideração o princípio ou o fim. Como diz Westcott, "O tempo verbal imperfeito do original sugere nesta relação, até onde a linguagem humana pode ir, a noção de uma existência supratemporal absoluta".
Se João tivesse incluído o artigo, ele teria dito algo muito falso. Ele teria identificado a Palavra com o Pai, de forma a sugerir o unicismo. Nesse caso, seria sem sentido dizer (nas palavras da segunda oração desse versículo) que a Palavra estava com Deus. A “Palavra por si mesma não constitui toda a Trindade; não obstante a divindade que pertence ao restante da Trindade pertence também a ela” (Tasker, p. 45). Mas por que toda esta definição? Não para nos dar alguma informação abstrata a respeito de certas distinções misteriosas na Divindade, senão para fazer o leitor saber quem era Aquele que na plenitude do tempo “se fez carne” — o Verbo, ou A Vida Eterna (v. 1:14; 1Jo.1:2).

Isso demonstra que João, nessa oportunidade, (1) não teve como objetivo informar quantos deuses existem por natureza (algo inconcebível no monoteísmo judaico), e (2) não quis apontar qualquer distinção entre “divindades” de níveis diferentes. Ademais, é correto inferir que o próprio apóstolo esclarece esse mal entendido em sua primeira carta, denominando cada Pessoa que fora predicada como sendo PLENAMENTE divina em seu prólogo (cf. 1 João 1:1-3), anulando definitivamente o argumento de que a narrativa implique distinção entre entidades no referido. Aqui está em vista as múltiplas faculdades e capacidades cognitivas da Divindade.
Quando alguém diz que o Pai (ou o Filho, ou o Espírito Santo) é Deus, não se está fazendo uma declaração de identidade. Pelo contrário, este "é" é um "é" de predicação, não de identidade. Por exemplo, se eu disser “Elizabeth é rainha”, não estou dizendo que Elizabeth é idêntica à rainha. Eu estou dizendo que ela detém o cargo ou o papel ou o título de ser rainha. Mas seria possível haver co-regentes. Certo? Às vezes isso acontece. Há mais de um rei ou mais de uma rainha. Então, quando dizemos "Elizabeth é rainha" você não está fazendo uma declaração de identidade; você está fazendo uma predicação. Você está predicando ser rainha a Elizabeth. Então, quando dizemos que o Pai é Deus, essa é uma maneira de dizer que o Pai é divino. Quando dizemos que o Filho é Deus, é uma maneira de dizer que o Filho é divino. Você está fazendo uma predicação do Pai e do Filho. Você está predicando a divindade completa do Pai e do Filho. Você não está fazendo uma declaração de identidade. Caso contrário, você teria três deuses. Assim, propriamente falando, a verdadeira declaração de identidade seria “a Trindade é Deus”. Quando dizemos que o Pai é Deus, o Filho é Deus , esses não são declarações de identidade, ao contrário, são predicações. Eles são propriedades predicadoras do Pai, do Filho e do Espírito Santo, a saber, a propriedade de ser completamente divino.
Devido surpreendente revelação do Ser de Deus (YHWH), a igreja adotou o conceito de “Trindade”, este, fundamentado na compreensão da existência de Um único Deus que possui três conjuntos distintos de faculdades cognitivas, cada um suficiente para a autoconsciência, intencionalidade e volição, e, portanto, para a pessoalidade (diferente do unitarismo) — Pai, Filho e Espírito Santo —, que no ordenamento de atividades possuem Sua própria funcionalidade (diferente do unicismo), que coexistem desde a eternidade (diferente do modalismo), são unas em essência e propósito (diferente do politeísmo), reais e ativas no mundo desde sua fundação (diferente do ateísmo) e defendida pelas Escrituras. Considerando isso, o Novo Testamento está repleto de claras e significantes evidências que apontam para a comprovação dessa sentença (cf. 1Co.8:6 ; At.5:3,4 ; 20:28 ; Jo.20:28 ..etc). Não se trata da doutrina de que existem “três seres separados que possuem essa natureza [divina]”. Isso seria politeísmo. Os cristãos crêem que existe um Deus tripessoal.
Deus (na visão cristã) pode ser comparado a uma "alma". Ele é uma substância espiritual, assim como você e eu temos almas. Nossas almas são uma pessoa porque estão equipadas com um conjunto de faculdades racionais que as capacitam a ser um agente auto-reflexivo capaz de autodeterminação, suficientes para a personalidade - para a autoconsciência, liberdade da vontade e a intencionalidade. Mas pense em Deus como uma "alma", tão ricamente equipada que é dotada de três conjuntos de faculdades cognitivas, cada uma suficiente para a pessoalidade. Portanto, essa alma seria literalmente tri-pessoal. Isso lhe dá, não tri-teísmo ou politeísmo, mas uma única substância espiritual ou alma que é tri-pessoal. Assim, a "distinção" que há na Divindade têm mais a ver com o âmbito cognitivo do que ontológico. Por alma, eu quero dizer uma substância viva e espiritual. Ao caracterizar Deus como uma alma, significa o que Jesus quis dizer quando falou “Deus é espírito” (João 4:24). Uma alma humana tem faculdades cognitivas racionais, mas não é idêntica às suas faculdades racionais, já que as faculdades não são algo que existe por si só na abstração da coisa que as tem. O que é uma alma? É o que você é sem o seu corpo. Normalmente, nós supomos que uma alma racional é idêntica à uma pessoa. Mas isso é porque nós estamos familiarizados com almas dotadas somente de um conjunto de faculdades racionais suficientes para ser uma pessoa. Deus seria como uma alma dotada de três conjuntos de faculdades racionais, cada uma suficiente para ser uma pessoa, para que Deus seja tri-pessoal. “O que significa essa ‘coisa’ nebulosa que unifica... essas pessoas”? Não é a substância espiritual que são as faculdades. É a entidade ou ser imaterial que tem essas faculdades. Há portanto, nessa única ‘Alma’ (ou substância imanente), três centros de racionalidade.
Ora, deve-se reconhecer que isso é alucinante, mas não equipare algo que seja assim com algo que seja improvável. A mecânica quântica é alucinante, mas isso não implica que ela é improvável enquanto explicação do mundo físico. Vivemos num universo tão alucinante que praticamente fica além da compreensão!. É, portanto,  razoável dizer que há "contradição" no conceito cristão de “Trindade”? Certamente que não, pois contradição seria se disséssemos que Deus é um no mesmo sentido em que Ele é trino, o que nunca fizemos. Ele é um quanto ao seu Ser (ou essência) e três quanto a Sua personalidade. Cremos portanto que Deus pode ser comparado a uma mente incorpórea, dotada de três conjuntos de faculdades racionais, cada uma das quais suficiente para a pessoalidade.
Por "um ser", queremos dizer que há uma única essência divina, ou "ousia" (substância) espiritual — pense em uma mente incorpórea (literalmente sem corpo). Por “três pessoas”, entende-se três autoconsciências ou "Eus". "Eu" (na psicologia), é um centro da personalidade; na língua portuguesa é um pronome pessoal. Esse três "Eus" são reais e ativos nessa única mente — não pense em Deus com uma forma humana brilhante com braços e pernas sem rosto. Isso é coisa de Hollywood. A esse respeito, o cristianismo ortodoxo difere do mormonismo, por exemplo, que concebe Deus ou os deuses como sendo objetos humanóides físicos. Entendemos que cada uma das personalidades divinas devem compartilhar exatamente os mesmos atributos (eternidade, onipotência, onisciência, onipresença, asseidade, etc...). Essas três pessoas não são "instâncias" separadas da natureza divina, e é por isso que não há três deuses, ou seja, não acreditamos que Pai, Filho e Espírito Santo são "seres distintos com uma natureza divina em comum". A Trindade é o único exemplo da natureza divina, portanto, existe apenas um Deus. Assim, Deus seria um Ser que sustenta três pessoas, assim como nossos seres individuais apóiam uma pessoa.
Considerando esses fatos, o que nos resta concluir é que aparentemente os opositores chamam de "contraditório" ou "filosofia" aquilo que eles ainda não possuem, ou não querem ter acesso consciente. Se não estúpidos, recalcitrantes. Pedro falou sobre eles em sua primeira carta no capítulo dois e verso oito:
"E [ Cristo é ] pedra de tropeço e rocha de escândalo, para aqueles que tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados"...
 Veja nossa resposta ao frágil argumento Jeovista abordando João 1:3 e mais uma Prova INCONTESTÁVEL da eternidade do Logos como Deus clicando AQUI.

Brício Lube 
IPB Ulisses Guimarães, Teixeira De Freitas — BA.

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