BREVE DIÁLOGO COM UMA TESTEMUNHA DE JEOVÁ SOBRE NATUREZA DIVINA.


Esse diálogo ocorreu em uma das páginas de minhas redes sociais com uma "testemunha de Jeová" de nome Daniel. Tratamos sobre a questão da divindade de Cristo, onde tentei explica-la verdades atinentes ao assunto. Devo ressaltar que 'as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando nós sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo' (2Co 10: 3-5).

INÍCIO DA DISCUSSÃO

TJ: 

"Vcs atacam um espantalho. TJs não negam que Jesus seja de mesma natureza que o Pai. Elas negam que isso implique em co-igualdade no resto."

Brício Lube

"Olá Daniel. Devo considerar que foi muito interessante sua afirmação: "Tjs não negam que Jesus seja da MESMA natureza que o Pai. Elas negam que isso implique em co-igualdade no resto". O que você quer dizer com "MESMA natureza"? Pode explicar melhor ?"

TJ: 

Natureza divina. "Deus é espírito" (João 4:24).

Brício Lube:

"Acho que entendi seu raciocínio, porém, percebo que ele é debilitado em virtude do texto que você utiliza para tentar sustentá-lo. Por favor, permita-me explicar-lhe a expressão que aparece no texto que você utilizou (Jo 4:24). Nota-se que ao dizer 'Deus é espírito', Jesus não está sugerindo que Deus é um espírito entre muitos outros, nem simplesmente que ele é incorpóreo no sentido “estóico”, nem que ‘espírito’ defina completamente suas propriedades metafísicas. Não. Talvez isso seja o que você pensa quando lê esse texto. Nesse contexto, ‘espírito’ caracteriza como Deus é, da mesma forma que carne, localização e corporeidade caracterizam como são os seres humanos e seu mundo. ‘Deus é espírito’ significa que Deus é invisível, desconhecido para os seres humanos a menos que ele decida se revelar (leia 1.18). Como ‘Deus é luz’ e ‘Deus é amor’ (1Jo 1.5; 4.8), assim também ‘Deus é espírito’: esses são elementos na forma em que Deus se apresenta aos seres humanos, em sua bondosa auto-revelação em seu Filho. Portanto, essa expressão 'Deus é Espírito' não sugere (em última instância) que todo ser "espiritual" possua a mesma natureza de Deus pelo simples fato de ele ser um "espírito" (como aparentemente você insinua em seu argumento). Não pretendo aqui começar uma discussão inútil, porém, devo informá-lo que a "natureza de Deus" é justamente o que O distingue de suas criaturas. Diferente da criação, Deus possui uma natureza composta de propriedades inerentes a Seu Ser, tais como: Eternidade, onipotência, asseidade, onisciência, necessidade etc., que sendo perfeita e indivisível certamente O define como sendo Quem Ele É. Ora, se Jesus possui a MESMA natureza que o Pai e a natureza de Deus o define, segue-se que Cristo é tão Deus quanto seu Pai é Deus (Jo 1:1)."

TJ:

"Agradeço pelo comentário educado, mas não darei valia a ele por carecer de elementos bíblicos suficientes pra comprova-lo. A forma mais fácil de entender o que é a natureza divina é fazendo um contraste com a natureza humana. O que é a natureza humana? Ter natureza humana significa ter um corpo humano comum a toda a humanidade. Esse corpo humano é feito de carne e osso, basicamente falando. A natureza divina é o contrário disso. Ter natureza divina (divindade) significa ter um corpo divino comum a todos os seres celestiais. Que tipo de corpo eles têm? A Bíblia diz que os seres (pessoas) espirituais possuem ‘corpos espirituais’.  1 Coríntios 15:44 diz: “Se há corpo físico, há também um espiritual.” A cristandade rejeita essa afirmação de que Jesus tenha um corpo em forma de espírito. Segundo eles, ao ser ressuscitado, Jesus passou a ter um corpo carnal glorificado e ainda possui este corpo nos céus. Mas essa afirmação dos trinitários, de que Jesus tem um corpo carnal glorificado, entra em choque com a própria doutrina da Trindade, que afirma que as 3 pessoas são coiguais. Ora, se Jesus tem um corpo carnal glorificado e o Pai e a suposta pessoa do espírito santo têm um corpo em espírito, já não há mais igualdade aí. Jesus teria algo que as outras ‘duas pessoas’ não têm. Portanto, vocês falam que Jesus tem a mesma natureza que o Pai da boca pra fora, porque na prática não crêem nisso. Então, quando a Bíblia fala em Filipenses 2 que Jesus assumiu a "forma de servo", ela quer dizer que ele largou seu corpo espiritual (“forma de Deus”) e passou a ter um corpo carnal humano, sendo totalmente humano. Agora, ter natureza divina implica coigualdade com o Pai? A resposta é NÃO. Além disso, em 1 Coríntios 15:50-54 e em 1 João 3:16, é dito que os humanos que irão para o céu vão ter a mesma natureza que Jesus e serão semelhantes à ele. Em Colossenses 2:9, é mencionado que, em Jesus, habita corporalmente toda a plenitude da divindade (natureza divina). Mas vejamos a continuação no verso 10: “E, por estarem nele, que é o Cabeça de todo poder e autoridade, vocês RECEBERAM TODA A PLENITUDE.” – Colossenses 2:10, NVI. Percebam que a plenitude da natureza divina de Jesus é dada aos servos fiéis. ISSO É MUITO RELEVANTE! É a Bíblia que diz isso, não as TJs. Com isso concordam as palavras de 2 Pedro 1:4: “Por intermédio destas ele nos deu as suas grandiosas e preciosas promessas, para que por elas VOCÊS SE TORNASSEM PARTICIPANTES DA NATUREZA DIVINA.” Veja que o texto é claro…os servos que vão pro céu vão PARTICIPAR da mesma natureza que eles tem…não é uma natureza divina diferente, senão não seria participação….
CONCLUSÃO: Então Jesus, anjos e os salvos que vão para o céu podem ter divindade (corpo espiritual) e não ser coiguais ao Pai (o único Deus Todo Poderoso). A alegação de que o fato de Jesus ter natureza divina o torna igual ao Pai é apenas mais um dos equívocos propagados erroneamente ao longo do tempo. Portanto, o fato de Jesus Cristo possuir “toda a plenitude da divindade” (Ave Maria, ACF) não significa que ele seja coigual ao seu Deus e Pai, Jeová. Também não pretendo aqui alongar um debate. Mas agradeço pelo espaço."

Brício Lube:

Disponha sempre. Ótimo tê-lo aqui conosco.

Quanto ao meu comentário acerca de João 4:24, perdoe-me, mas deve-se considerar que expus o verso em questão dentro do seu devido contexto, explicando-o e utilizando de demais passagens que elucidam a questão, logo, não se pode alegar que não haja "elementos bíblicos suficientes" para comprovação do mesmo. Perceba que o contraste sugerido por você está implícito no texto, o que não deixou de ser averbado em minha exposição, eu disse:

"Nesse contexto 'espirito' caracteriza como Deus é, da mesma forma que carne, localização e corporeidade caracterizam como são os seres humanos em seu mundo".

Postulo então que a expressão "Deus é espírito" é apenas um elemento na forma em que Deus se apresenta aos seres humanos, assim como nos é dito que ‘Deus é luz’ e ‘Deus é amor’ (1Jo 1.5; 4.8). É óbvio que João não está aqui definindo a "natureza" de Deus em toda sua especificidade ontológica. A expressão aqui é mais uma questão de descrever a liberdade soberana que Deus tem em contraste com os homens, fechados num mundo material, do que uma definição da sua natureza. Por isso, os homens precisam adorá-lo em espírito, pois somente por meio dele podem ter comunhão com Deus. Perceba o paralelismo de Isaías 31.3: “Mas os egípcios são homens, e não Deus; seus cavalos são carne, e não espírito”. Geralmente, o ‘espírito’ no Antigo Testamento é renovador, criativo, doador de vida, corretamente, chama atenção para Jo 3:8, em que o que é ‘espírito’ não pode em si mesmo ser completamente apreendido, mas seu efeito não pode ser negado. Ele é conhecido por intermédio de seu ‘som’ ("phone" - veja 1.23; 5.25, 28, 37,38; 10.3-5, 16, 27; 11.43; 12.28, 30; 18.37). Da mesma forma, nesse contexto, ‘Deus é espírito’ significa que Deus é intátil em oposição ao tangível.

Parece-me que há uma tentativa de associar "ser espírito" com "ser divino" ou possuir "natureza divina", como se fossem sinônimos ou consequência. Ora, essa compreensão diverge do que as Escrituras ensinam, visto que não se pode dizer que todos os demônios são "divinos" em função de serem "espíritos", isso seria um absurdo — além de minar com o monoteísmo abraçando um politeísmo macabro. Entretanto, com respeito a antropologia, não podemos negar o fato de que a "natureza humana" também é constituída de um corpo palpável de "carne e ossos" como você observou, porém, você sabe que não é apenas isso que a "define precisamente" como sendo ‘humana’, por exemplo, animais têm "carne e ossos", nem por isso são “humanos”, eles não são racionais. Porquanto o homem, sendo a imagem de Deus (Cl.3:10), deve ter, por natureza, ao menos duas partes, o que poderíamos definir como “homem exterior” e “homem interior” (2Co 4:16). “Homem interior” é uma expressão paulina que se refere à natureza racional, moral e espiritual do homem, que é a esfera total na qual o Espírito Santo efetua a sua obra convincente, renovadora e santificadora (Rm 7:22; Ef 3:16). Em resumo, é sinônimo da psiquê ou "huach" dentro do homem (veja Zc 12:1). Pois bem, o fato dos humanos possuírem "corpos materiais" compondo sua natureza não significa necessariamente que Deus deva também possuir um "corpão divino" devido o mesmo manter um relacionamento adorador-adorado para conosco espiritualmente, ou "em espírito" (isso é um disparate!). A Bíblia também diz que Deus é "luz” mas isso não significa que toda radiação electromagnética que se situa entre a radiação infravermelha e a radiação ultravioleta sejam alguma espécie de nuances de Deus (l Jo 1:5; 2Co 11:14), isso apenas demonstra como Deus aprouve se manifestar. Ora, quando aprendemos que “Deus é luz, e não há nele treva nenhuma” entendemos, figuradamente, que Deus é totalmente bom, sem nenhum sinal do mal. Sua deidade é essencial e necessária, ao contrário da criação. Por outro lado, em conformidade com o que João escreveu, Deus ser "espírito" implica em o Mesmo ser invisível e intangível, assim como ser “amor” implica em Ele ser compassivo, benevolente, acessível etc.. (l Jo 4:8), não significando que toda forma de amor é Deus, muito menos que Deus - por ser amor - é um sentimento impessoal. Considere então que Deus é amor, mas o amor não é Deus, os dois termos não são intercambiáveis, assim como ‘espírito’ e ‘divino’ também não são. Deus é espírito, mas ser um espírito não significa ter a mesma natureza de Deus, ao passo que ser "divino" não requer um "corpo substancialmente espiritual", corporeidade não faz parte da Sua natureza, pois o Mesmo é maximamente transcendental (infelizmente, suponho que esteja havendo uma certa confusão da sua parte com relação as expressões utilizadas por Paulo em 1Co.15:44, falarei algo sobre mais adiante).

SOBRE SER DIVINO

Sabemos pois que "divino" refere-se àquilo que qualitativamente compreende a natureza da divindade (i.e. asseidade). Em vista disso, o grande desafio para os neo-arianos a ser considerado é: 1) encarar o que está escrito acerca de Cristo, não duvidando que "nEle habita corporalmente toda a plenitude da Divindade” (Cl 2:9) . Sugiro que não se pode pensar que só há "resquícios" onde se contém o todo, isso seria contraditório. Paulo afirma: "todo o pleroma da Divindade"... não apenas determinado aspecto. "Divindade" nesse texto compreende ousia (essência) e não mero feitio. Se ele (Paulo) quisesse dizer algo parecido - como sugerem os jeovistas -, teria usado uma expressão mais conveniente, tal como: “pneuma”... o que não se encontra nesse verso, senão theotetos em todo seu pleroma. Ademais, não podemos ceder ao anseio do demônio afirmando que o mesmo possui toda plenitude da divindade pelo fato de simplesmente ser um ente espiritual. Logo, tido que não há deus como o nosso Deus (Sl 86:8), e aceitando toda escritura como sendo inspirada, eles não podem se desviar do fato de que o próprio Deus através dos escritores do NT deixou subentendido que há uma espécie de pluralidade de respectivos centros de autoconsciência, intencionalidade e volição suficientes para pessoalidade na singularidade do Seu Ser único em unidade, entendido progressivamente a partir da revelação neotestamentária (Jo 1:1; 20:28; At 5:4, 5; 20:28); há, portanto, “distinção” entre as pessoas, porém, é uma questão psicológica e não ontológica; 2) a sugestão de que ho Logos seja “um deus” menor procedente [ou gerado] de outro Deus maior além de ser uma tolice — tendo em vista que vai contra o que o próprio Deus afirma em Is 43:10 —, resulta em algo deliciosamente gnóstico, sem que haja escapatória. Entendemos por conseguinte que a pessoa do Filho não pode ter a mesma natureza divina que a de Seu Pai sendo um ser distinto ontologicamente do Mesmo (sobre a natureza do Espírito Santo cf. Jo 14:16, gr., Allos). O jeovista sempre irá argumentar (utilizando Cl 1:19), que o fato de Jesus "possuir divindade", em si não prova nada, pois como está escrito, foi do agrado de "Deus" (que entendem eles ser apenas o Pai) que Cristo possuísse Divindade." Ora, há um erro aparente nessa suposta “observação”. Note que o jeovista se esquece que o Verbo é anterior a tudo que veio a existência (ver, Jo 1:3), e que, obviamente, também deva ser anterior ao Jesus histórico (hominídeo nascido). Onde estou querendo chegar? O que acontece na “interpretação” jeovista pode ser concebido como um legítimo anacronismo. Considere que ali, nos versos 18 à 22, Paulo claramente muda o foco em sua narrativa sobre o Cristo, abordando verdades voltadas ao seu estado exaltado e ressurreto, diferente do que faz inicialmente, quando faz alusões acerca do seu estado pré-encarnado (leia os versos 15 à 17). Perceba que ele desenvolve seu discurso referindo-se não só ao estado anterior a encarnação do Logos como também posterior ao evento, doravante menciona seu propósito de realizar a reconciliação ("pelo seu corpo físico" v 22), encerrar a ruptura da harmonia e estabelecer a paz entre o homem pecador e Deus, por meio do sacrifício do Salvador na cruz, desde então, não se faz menção à qualquer período anterior ao evento encarnacional. Há, no entanto, uma referência à Sua condição assumida no contexto histórico. Com isso em mente, Paulo afirma que, Deus – não diz lit. “o Pai” - mas diz que “aprove habitar nEle toda plenitude”, isso é, Deus considerou próprio, agradável, e resolveu que sua própria plenitude residisse no Jesus histórico, na qualidade de Deus-homem. No mesmo, quando diz “habitar nEle”, no grego, temos o verbo “katoikeo”, que é posto em contraste com “paroikeo”. O primeiro significa “tomar residência permanente”, “firmar-se em”, com a intenção de ficar. A mesma palavra é usada acerca da habitação de Cristo nos remidos, por meio do seu Espírito, em Ef. 3:17. Para comprovação desse fato considere que o próprio Cristo tinha seu corpo gerado como um templo (Jo. 2:19, 21). Portanto, quando Paulo fala a respeito de "fazer habitar plenitude" há em sua mente aquele judeu da Galileia, nascido por volta do início do primeiro século, e que morreu entre os anos 30 e 36 d.C, e não o Verbo descrito no prólogo joanino. Considere então que o Verbo assume um corpo humano como seu; mas sem cessar de ser conhecedor e causalmente ativo em cada ponto do espaço. Lembremos também que o significado de “onipresença” não compreende que Deus está espalhado como um éter pelo espaço, mas que ele é causalmente ativo em todos os pontos do espaço. Isso ainda pode ser possuído pelo Verbo durante seu estado de humilhação. Só não era parte da vida consciente do Jesus histórico. As dificuldades que surgem com relação a isso está em pensar na encarnação como o Verbo de alguma forma se encolhendo para o tamanho de um corpo humano. Eis o erro, pensar na encarnação como algo que a natureza divina faz em vez de algo que a pessoa divina faz. Esta permanência da divindade em Cristo é o fundamento da reconciliação por Ele. [Bengel]. Daí o “e” (Cl.1:20) une como causa e efeito as duas coisas, a divindade em Cristo e a reconciliação por Cristo. O que nada tem a ver com a interpretação jeovista.  — Deus pode compartilhar essência intrínseca sem comprometer sua Glória? (Is.42:8). [....] e por fim, 3) de acordo com a doutrina Trinitária, Cristo compõe os três conjuntos distintos de faculdades cognitivas do Deus único. Quando lemos que o Filho possui a mesma natureza que seu Pai, que é Divina, não há outra maneira de entender senão que Ele é essencialmente o mesmo Ser que o Pai, como também o Espírito Santo, pois não existe mais do que um ser Divino. Decerto que não devemos pensar nas Pessoas divinas como instâncias da natureza de Deus, para que não tenhamos uma “quaternidade”, em vez de uma Trindade. Há um só Ser apenas que é triúno. O Pai, o Filho e o Espírito Santo compartilham as mesmas propriedades essências que fazem com que sejam considerados divinos, como onipotência, onisciência, perfeição moral (o que “arcanjos” não têm, ver Jó 4:18; 15:15. Porém, sobre Jesus leia 2Co 5:21; 1Jo 3:5; Hb 4:15), necessidade, etc. O esqueleto e o DNA de um gato são total e genuinamente felinos, mesmo que eles próprios não sejam gatos, isto é, instâncias da natureza do gato. Da mesma forma, o Pai, o Filho e o Espírito são genuinamente divinos, embora cada um deles não seja uma Trindade, isto é, uma instância da natureza de Deus. Alguém pode ser chamado “deus”, mas isso não significa que esse ser possui “natureza divina” ou seja ‘espiritual' (ver Ex. 7:1 sobre Moisés), muito menos signifique como averbado acerca de Cristo em Cl.2:9. Anjos, por exemplo, são uma ordem sobrenatural de seres celestiais criados separadamente por e de Deus antes da criação do mundo (cf. Jó 38.6,7) e chamados de “espíritos” (Hb 1.4,14). Embora sem organismo corpóreo, foi-lhes permitido aparecer frequentemente na forma de homem (Gn 19.1,5,15; At 1.11) e em certas ocasiões chamados "deuses" (elohim), mas isso devido o poder e autoridade a eles outorgado, e não por serem "espiritos" (Sl 8:5; 2Co 4:4; Lc 4:6). Outro exemplo que temos é o dos juízes corruptos de Israel que também foram chamados “deuses” (elohim) porque a administração da justiça era uma prerrogativa divina delegada a alguns escolhidos (Êx 21.6; 22.8,9,28; Dt 1.17; 1Cr 29.23; 2Cr 29.6,7; cf. Sl 82.1-4). Porém, em nenhum lugar da Bíblia se é afirmado que anjos (bons ou maus) ou seres humanos possuem “natureza divina” ou tudo que concerne a “Divindade” (gr., theotes). Ainda que Deus os tenha criado como seres metafísicos (Cl 1:16), isso não os torna “divindades”, nem tão pouco denota “corporeidade espiritual”, mas apenas intangibilidade imperceptível aos olhos humanos, sobrenatural (ver Lc 24:39). Cristo não é alguém "semelhante" à divindade, mas no sentido mais completo, possui a própria essência de Deus (Toda! Como diz o apóstolo). A afirmação de Paulo de que há “supostos deuses” e, na verdade, “muitos deuses e muitos senhores” parece confirmar o AT, o qual reconhece que os deuses pagãos, embora não sejam realmente "deuses" naturalmente e de modo algum possam ser comparados ao Deus de Israel (por isso, são apenas “supostos deuses”), representam alguma realidade. Isso pode mostrar um eco de Deuteronômio 10.17, passagem em que, apenas uns poucos capítulos após o Shemá, é dito aos israelitas: “O Senhor vosso Deus (Elohim), é o Deus dos deuses (Elohim) e o Senhor dos senhores”. Esse é o único texto da Bíblia hebraica em que “deuses” e “senhores” aparecem na mesma frase, como em 1Coríntios 8.5. Nota-se curiosamente mediante esse texto (Dt 10:17) que a mera aplicação da palavra “elohim” para designação "deus" não garante que seus receptores tenham a mesma natureza Divina que o seu criador. Veja que ela aparece para com o Deus de Israel em contraste com deuses falsos (no mesmo versículo!) sendo assim impossível que o fato desses seres serem chamados "elohim"  signifique que os mesmos possuam a mesma natureza de Deus.

SOBRE 1 CORÍNTIOS 15:44

Quanto ao que você disse sobre 1Corintios 15, devo lhe esclarecer que para Paulo, "natural" e "espiritual" (v 44) não são substâncias a partir das quais corpos são feitos, mas princípios dominantes pelos quais corpos são dirigidos. Praticamente todos os comentaristas modernos concordam neste ponto: Paulo não está falando de um corpo exclusivo feito de espírito ou éter; ele quer dizer um corpo sob o senhorio e direção do Espírito de Deus. O presente corpo é “natural” na medida em que a alma é seu princípio dominante (cf. “homem natural”, 1Coríntios 2.14). O corpo vindouro será “espiritual” não no sentido de uma substância espiritual, mas na medida em que o espírito será seu princípio dominante (veja, “homem espiritual”, 1 Coríntios 2.15). Não diferem enquanto o corpo; diferem, sim, enquanto orientação. O contraste não é entre corpo físico e corpo não-físico, mas entre corpo orientado naturalmente e corpo orientado espiritualmente. Alguém pode bradar dizendo: “mas no verso 50 Paulo diz que carne e sangue não podem herdar o reino dos céus”. A estes gostaria de informar que os comentaristas concordam que “carne e sangue” é apenas uma expressão semítica típica para denotar a frágil natureza humana. Enfatiza nossa débil mortalidade em relação a Deus. O fato de que o verbo esteja no singular talvez também sugira que Paulo não esteja falando de aspectos físicos do corpo, mas de uma unidade conceitual: “carne e sangue não pode herdar...”. Em outros lugares, Paulo também emprega a expressão “carne e sangue” para significar simplesmente “pessoas” ou “criaturas mortais” (cf. Gálatas 1.16; Efésios 6.12). Portanto, Paulo não está falando aqui de anatomia; antes, ele quer dizer que seres humanos mortais não podem entrar no reino eterno de Deus: por isso, devem se tornar imperecíveis (cf. v. 53). Esta imperecibilidade não conota imaterialidade ou inestendibilidade; pelo contrário, a doutrina paulina do mundo vindouro é que nossos corpos de ressurreição serão parte de, por assim dizer, uma criação ressurreta (cf. Romanos 8.18-23), [da qual o Cristo ressurreto é o "primogênito", ou, "princípio". Ver Colossenses 1:18; Apocalipse 3:14]. O universo será libertado do pecado e corrupção, e não da materialidade, e nossos corpos serão parte de tal universo.

SOBRE 1 PEDRO 3:18, 19

Você poderá insistir utilizando 1Pe 3:18 para dizer que Jesus ressuscitou “COMO UM espírito”, na tentativa de invalidar a ressurreição corporal, todavia, este mal-entendido é excluído por, pelo menos, três razões.

Primeiro, o restante do Novo Testamento insiste que a morte e a ressurreição de Cristo eram físicas. Seu corpo foi morto, e o mesmo corpo foi erguido, embora de forma aprimorada (Jo 2:19-22). E segundo, o espírito de Cristo nunca foi morto antes da crucificação, e nunca foi morto em nenhum sentido que exigisse sua ressurreição. Em outras palavras, se a ressurreição não fosse física, então, a princípio, ele não precisaria de "ressurreição". Então, em terceiro lugar, temos “no espírito”, antitético com “na carne”, ambos sem artigo. Deve-se entender “Morto” quanto ao anterior modo de vida, e “vivificado” no novo. Enquanto que tinha vivido segundo a maneira do homem mortal na carne, Ele começou a viver uma vida espiritual de “ressurreição” (v. 21), pelo qual tem poder para levar-nos a Deus.

Isso, por sua vez, influencia a nossa compreensão do versículo 19. Dado o que entendemos sobre o versículo 18, em vez de começar o versículo 19 com a tradução "através de quem" (NVI), talvez, seja melhor dizer "em que", isto é, no reino do espírito. O significado é "nesta esfera" ou mesmo "sob essa influência". O que não anula a ressurreição corporal.

Entendo que seu discurso parte de uma interpretação errônea de 1Co.15:40,41 onde se menciona "corpos terrestres" e "corpos  celestiais". Provavelmente você não leu meu artigo sobre esse texto, isso é perfeitamente compreensível. Percebe-se pela maneira reduzida que você expõe a questão. Nele explico atinente tais versos que não pode haver dúvidas a partir do v.41 que Paulo se refira a corpos astronômicos, e não a Deus, ou anjos. Esse texto não prova "corporeidade espiritual", algo que em si mesmo já soa contraditório.

A CO-IGUALDADE ENTRE AS PASSOAS E A ENCARNAÇÃO

Concernente a doutrina da Trindade, cremos que as Pessoas, que são distintas uma das outras, também têm propriedades contingentes que não são compartilhadas por todas as três Pessoas. Por exemplo, somente o Filho tem a propriedade de possuir uma natureza humana e uma divina. Isso compreende a Trindade em seu aspecto econômico, enquanto que a "co-igualdade" diz respeito Seu aspecto ontológico. Sua pergunta é: “Como o Filho pode assumir uma natureza humana sem que a natureza das outras pessoas seja afetada ?” O pressuposto errôneo por trás da sua pergunta é que seja a natureza que se torna encarnada e não a Pessoa do Filho. Não é isso que a doutrina ensina. A doutrina da encarnação não ensina que a natureza divina do Filho de alguma forma assumiu uma natureza humana. Ao contrário, sua alegação é que a segunda Pessoa da Trindade, que tem uma natureza divina, acrescentou à essa natureza uma natureza humana também. Portanto, você não deveria pensar na encarnação como duas naturezas que se mesclam; de fato, a formulação clássica é que as naturezas permanecem sem mudança e distintas na encarnação. Elas são unidas somente no sentido de que há uma Pessoa que veio a ter duas naturezas. Então, é um erro dizer por exemplo que "uma natureza divina única [...] agora parece incluir a natureza humana de Cristo". Pelo contrário, as naturezas permanecem distintas até mesmo para o Filho. Isso fica evidente no fato de o Filho ter uma natureza humana ser um fato contingente a respeito dele; nos mundos possíveis em que Deus se abstiver da criação em geral, a Segunda Pessoa da Trindade não terá nenhuma natureza humana. Assim, sua humanidade não pode fazer parte de sua natureza divina.

TEOLOGIA KENÓTICA À VISTA

(Uau!) nota-se que seu entendimento do texto de Filipenses 2:7 é precisamente kenótico (um conceito teológico já superado a muito). Veja que embora Cristo não seja um membro típico do tipo natural “homem”, ele é um membro típico da “deidade” e, portanto, não pode deixar de ser Deus sem deixar de existir (naturalmente, Deus não pode deixar de existir, por ser necessário e eterno). Portanto, Cristo não poderia ter deixado de ser Deus. Decerto que "forma” em Fp. 2 dá a entender adorno exterior, a fala e a aparência. Contudo, o fato do Verbo ter assumido "forma de servo" não implica em ele ter deixado de ser quem Era. O Verbo não se tornou um novo "eu" más acresceu a Sua Pessoa uma humanidade, despojando sim, das características externas, a majestade e beleza da deidade. A antítese não é entre o "estar Ele igual com Deus" e o “aniquilar-se” a Si, porque nunca se despojou da plenitude de Sua divindade nem de Seu “ser igual a Deus”; mas sim entre Seu ser “na FORMA (quer dizer, em Sua gloriosa “automanifestación” externa) de Deus”, e Seu “tomar a forma de servo”, fazendo o que Se desfez em grande medida de Sua precedente “forma”, ou de sua externa glória “automanifestante” como Deus. Não tendo “em vista o que é propriamente seu” (v. 4), Ele, não obstante existindo em forma de Deus, não se apegou ao fato de Ser quem Era, antes Se esvaziou a Si mesmo. É mister ressaltar que o “ser igual a Deus” não é o mesmo que “existir em forma de Deus".

       É preciso entender que ter a mesma natureza de Deus é ser tão Deus quanto se pode ser. O meu lamento é que você não compreendeu. Ainda que os textos que você mencionou (1Co.15:50-54 e 1Jo.3:16) não afirmem o que VOCÊ garante, não há erro em dizer que os cristãos terão uma natureza humana semelhante a natureza do Cristo ressuscitado guiados pelo Espírito Santo (Fp. 3:20,21). Esse é um dos propósitos da encarnação.

SOBRE COLOSSENSES 2:10 E 2 PEDRO 1:4

        Quanto ao que o senhor copiou do site do "Queruvim"...   Ora, você sabe que nada no texto de Colossenses 2:10 garante que teremos tudo atinente essência da divindade - como afirmado acerca de Cristo - isso é uma ILAÇÃO. A partir de uma leitura natural do texto, entendemos que já que toda a plenitude da essência intrínseca do próprio Deus está completamente concentrada em Cristo corporalmente — possivelmente aludindo ao evento encarnacional e ressurreição corpórea (v.9) — não existe nenhuma necessidade de justificativas ou procurar ajuda em outros lugares, salvação ou perfeição espiritual senão em Cristo. A Bíblia não diz que “os fiéis terão toda a plenitude da natureza divina”, isso é simplesmente mentira (leia Jo. 8:44). Os fiéis são "enchidos completamente” sim, de tudo o que vos faz falta (leia João 1:16). Como escreveu aos Efésios no capítulo 3, a partir do verso 17: "oro para que vocês, arraigados e alicerçados em amor, possam, juntamente com todos os santos, compreender a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo que excede todo conhecimento, para que vocês sejam cheios de toda a plenitude de Deus" [NVI]. Ele não está pedindo que a vida dos leitores seja divinizada; eles não serão cheios da plenitude da qual Deus está cheio como Ser infinito. O desejo do apóstolo é que eles desfrutem a plenitude da graça que Deus comunica aos homens por seu Filho. Os crentes recebem da unção divina que desce de Sua divina Cabeça e Sumo sacerdote (Sl 133:2). Ele está cheio (pleno) da própria “plenitude”; nós somos enchidos a partir dEle de graça sobre graça (Jo 1:16), mas isso não quer dizer que "habitará em nós corporalmente toda a plenitude da Divindade" (gr.,theotetos). Afirmar que possuiremos tudo o que em Cristo reside como averbado pelo apóstolo é, sem dúvidas, ir além do que está escrito (1Co 4:6).

Já nos ensina a regra: "texto sem contexto é pretexto para heresia".

        Em 2 Pedro 1:4, o apóstolo não afirmou que somos ou seremos "deuses”, como pensavam os gregos, é certo que nos tornamos “coparticipantes da natureza divina”  quanto as virtudes que provém de Deus (Tg 1:17). Sua santidade, por exemplo v 3; o oposto a “corrupção”, e “concupiscência”. Nesse sentido, o próprio contexto de 2Pe.1 pode nos fornecer o necessário para entendermos o que "coparticipante da natureza divina"  significa, veja o verso 5 logo depois: "por isso mesmo, empenhem-se para acrescentar à sua fé a virtude; à virtude o conhecimento; ao conhecimento o domínio próprio; ao domínio próprio a perseverança; à perseverança a piedade; à piedade a fraternidade; e à fraternidade o amor”[nvi]. Perceba, todas essas virtudes nos são comunicadas através do Espírito Santo, como Paulo escreveu aos Gálatas 5:22,23. Portanto, é correto dizer que experimentar e vivenciar os dons do Espírito significa ser "participante da natureza divina" de acordo com a própria passagem. Nós, pela fé, participamos também da natureza de Jesus (Ef 5:30). O “poder divino” nos faz participantes da “natureza divina”. Apesar de essa declaração dar espaço para várias interpretações, devemos observar quão precisamente Pedro escolheu suas palavras. Ele diz que participamos da natureza de Deus, e não do ser de Deus. Ele escolheu o termo natureza, porque este indica crescimento, desenvolvimento e caráter. O termo ser, por outro lado, aponta para essência e substância. Em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da "Divindade" [que compreende ontologia], quanto aos crentes, não mais do que experimentar os dons espirituais da parte de Deus.  Assim somos levados a entender que é nesse sentido que Pedro diz que seremos participantes da “natureza divina”, porém, de forma mais ampla. Não significa que teremos um "corpo divino" feito da substância da divindade, nada no contexto da passagem indica algo do tipo, nem quer dizer que seja isso que está sendo dito acerca de Cristo em Cl 2:9. Veja comigo o verso 8 agora: "Porque, se essas qualidades existirem e estiverem crescendo em suas vidas, elas impedirão que vocês, no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo, sejam inoperantes e improdutivos."[nvi]. Logo, fica explicado o texto de 2Pe.1:4 evidenciando que esse seu argumento é improdutivo do ponto de vista teológico. Por fim, não sou apaixonado pela doutrina da theosis , a ideia de que, de alguma forma, participaremos da natureza divina. A natureza divina são as propriedades essenciais de Deus. Nunca seremos onipotentes, oniscientes, eternos, necessários metafisicamente, perfeitamente morais, etc. Uma criatura sempre continua uma coisa criada. Os Pais da Igreja, que adotaram essa doutrina não quiseram dizer que literalmente nos tornaríamos divindades, mas que seremos glorificados e acabaremos com a nossa mortalidade e corrupção. Essa verdade não será apagada pelo discurso da divinação.

Grato por expressar sua opinião Daniel, mas lhe aconselho a estudar a Bíblia em uma denominação séria e não em qualquer organização que se diz detentora da "verdade" absoluta.

Abraço...

Brício Lube

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