ECLESIOLOGIA - A IDENTIDADE DA IGREJA VERDADEIRA


A Igreja verdadeira tem sido definida, de acordo com as Escrituras, como a união de todos os salvos do povo de Deus, através de Cristo Jesus, o edificador de sua Igreja. Não se trata de uma denominação, mas do povo de Deus. Sobre isso, o teólogo Wayne Gruden comenta:

"A Igreja é a comunidade de todos os verdadeiramente salvos. Paulo afirma: "Cristo amou a igreja e entregou-se a si mesmo por ela". (Ef. 5:25) Aqui o termo "a igreja" é usado para referir-se a todos aqueles pelos quais Cristo morreu para redimir, todos os salvos pela morte de Cristo. Isto, porém, inclui todos os verdadeiros cristãos de todos os tempos, tanto os salvos do Novo como os do Antigo Testamento. [...] O próprio Jesus Cristo edifica a igreja chamando o seu povo a si mesmo. Ele prometeu: "Edificarei a minha igreja". (Mateus 16:18) Lucas é cuidadoso quando nos informa que o crescimento da Igreja não se Deus apenas por esforço humano, mas "acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia os que iam sendo salvos. (Atos 2:47)." [1]
Ao dissertar sobre A efusão do Espírito e a Igreja, o teólogo Wolf Hart Pannenberg nos ajuda a mergulhar mais fundo na identidade de uma igreja verdadeira. O vínculo com Cristo nos insere na Igreja dEle, e pela fé estamos ligados uns com os outros. Nisto está a atuação do Espírito. Observe:
"A dádiva do Espírito não vale apenas para cada crente, mas visa à formação da comunhão dos fiéis, à fundação e ao sempre novo avivamento da igreja. Porque através do vínculo com o mesmo Senhor, pelo qual cada fiel recebe para si a participação na filiação e assim também no Espírito de Cristo, ele está simultaneamente inserido na comunhão dos fiéis. Cada um deles está ligado pela fé com o Senhor único e consequentemente também com todos os outros crentes. Por meio do Espírito cada indivíduo é elevado acima de sua própria particularidade para formar "em Cristo" com todos os outros fiéis a comunhão da igreja." [2]
Outro teólogo, Charles Hodge, resume a doutrina protestante da Natureza da Igreja em quatro pontos, os quais nos ajudam ainda mais a confirmar nossa crença sobre a identidade da Igreja verdadeira:
"Os protestantes, em contrapartida, ensinam sobre este tema, em exata consonância com a doutrina de Cristo e dos apóstolos: (1.) Que a Igreja como tal, ou em sua natureza essencial, não é uma organização externa. (2.) Todos os crentes, em quem o Espírito de Deus habita, são membros daquela Igreja que é o corpo de Cristo, não importa com que organização eclesiástica estejam conectados, e mesmo que não participem de tal conexão. O ladrão na cruz foi salvo, ainda que não se tornasse membro de nenhuma Igreja externa. (3.) Portanto, que os atributos prerrogativas e promessas da Igreja não pertencem a nenhuma sociedade externa como tal, mas ao verdadeiro povo de Deus coletivamente considerado; [...]. (4.) Que a condição de membresia na verdadeira Igreja não é a união com alguma sociedade organizada, mas a fé em Jesus Cristo. São os filhos de Deus pela fé. [...] Os protestantes não negam que haja uma Igreja Católica visível na terra, composta por todos os que professam a verdadeira religião, juntamente com seus filhos. Mas nem todos se acham inclusos numa única sociedade externa." [3]
Com essas definições, a fé protestante-evangélica entende, à luz das Escrituras, que o Corpo de Cristo, sua Igreja, não é uma Organização Eclesiástica, mas a união de todos os salvos em Jesus Cristo, o qual morreu por sua Igreja. Trata-se de uma Igreja Católica, ou Universal. As denominações cristãs são apenas expressões dessa Igreja, onde crentes compartilham as crenças centrais da fé cristã e se reúnem em comunidades com crenças secundárias em comum. Ensinam a verdade, pois baseiam-se nas Escrituras, embora sejam limitados pela imperfeição para interpretarem a Bíblia da forma como Deus a interpreta e, por isso, as divergências.

Portanto, gostaria de questionar: Se somos a Igreja ou Corpo de Cristo, não deveria haver mais respeito e união, e maior tolerância, entre os crentes verdadeiros, e menos denominacionalismo? Quer dizer que um batista é unido a um presbiteriano em Cristo, mas não podem pregar um na igreja do outro devido à questão do batismo, sendo que ele poderia pregar sem tocar nesses pontos divergentes? Quer dizer que um Pentecostal não aceita cristãos tradicionais para pregar em sua igreja porque eles entendem a questão dos dons de modo diferente? Quer dizer que igrejas que não aceitam membros de outra na ceia do Senhor? 

Quer dizer que ... bem, parece que a identidade da Igreja verdadeira em algumas 'igrejas' de várias denominações existe apenas no papel? Lamentável! Se por um lado temos o exagero Católico Romano de que só eles são a Igreja Verdadeira, mas são mais unidos do que nós, e muito mais, por outro lado, nós, evangélicos e protestantes, temos a cara-de-pau de nos chamarmos de irmãos e membros do corpo de Cristo e percebermos o denominacionalismo e o sectarismo navegarem quais arquinhas de Noé flutuando nesse dilúvio global de quase 60 mil denominações cristãs.

Em outras palavras, somos os verdadeiros torcedores de futebol porque, com nossos lábios torcemos todos unidos pela Seleção Brasileira (A Igreja), mas ao mesmo tempo somos Palmeirenses contra Corintianos, Vascaínos contra Flamenguistas, Gremistas contra Colorados discutindo quem grita gol melhor, quem tem o melhor jogador. Que gol contra!

Não estou afirmando que não possa haver diferentes expressões da Igreja em torno de interpretações comuns, sem violar o conjunto de doutrinas fundamentais de nossa fé cristã, mas precisamos saber ser igreja na Igreja. Onde está o amor e a tolerância de todos os que se dizem crentes? Falar "eu amo a minha sogra" e "eu amo meu genro" em uníssono soa-me hipocrisia quando ambos nem se visitam, não se relacionam como família. Você me entendeu, não é? É o meu desabafo! - Fernando Galli.
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[1] GRUDEN, Wayne. Teologia Sistemática - Atual e Exaustiva. Páginas 715, 716. São Paulo : Vida Nova, 1999.
[2] PANENBERG, Wolfhart. Teologia Sistemática. Página 39. Volume 3. Santo André, SP : Editora Paulus, 2009.
[3] HODGE, Charles. Teologia Sistemática. Página 100. São Paulo, SP : Hagnos, 2001.