DINÂMICA DA IGREJA LOCAL - A IMPORTÂNCIA DE PERDOAR UNS AOS OUTROS

A definição de perdão contemporânea é: “Remissão de pena; desculpa; indulto.” (1) Todavia, as palavras bíblicas para perdão carregam significados mais profundos. ALEXANDER & ROSNER definem “perdão” e “perdoar” da seguinte forma:

“No AT, as principais palavras hebraicas para “perdão”, e seu sentido básico, são as seguintes: slh (perdoar, perdão, enviar), noe’ (carregar, levar embora), kpr (cobrir), mhh (limpar) e ksh (cobrir). [...] O NT usa uma seleção bem menor de palavras. A mais comum é aphiêmi (usada com a conotação teológica de perdão cerca de 40 vezes), que é o principal verbo para “perdoar” encontrado nos Evangelhos [...] Em menor frequência, mas característico de Paulo, é charizomai (conceder graça, perdoar; e.g., Ef 4.32).” (2)

Ao comentar a palavra grega para perdoar, aphiêmi, VINE explica o seguinte:

“Significa primariamente a remissão do castigo devido à conduta pecaminosa, à libertação do pecador da pena divinamente – e, portanto, justamente – imposta; em segundo lugar, envolve a remoção completa da causa da ofensa; tal remissão é baseada no sacrifico vicário e expiatório de Cristo. [...] Substantivo. Aphesis denota soltura, libertação.” (3)

Com essas explanações em foco, “perdão” e “perdoar” têm como base os tratos de Deus com o homem, e que no âmbito humano envolve libertar o pecador de seu pecado, conceder graça a pessoa em transgressão, a fim de restabelecer a paz e o relacionamento entre o ofensor e o ofendido.

O MODELO DE PERDÃO

Jesus ensinou seus discípulos a pedir a Deus pelo perdão em sua oração-modelo do Pai-Nosso, nas seguintes palavras “perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores”. (4) A Pedro, Jesus instou a que perdoasse seu irmão “setenta vezes sete” (ou “setenta e sete vezes”) (5), denotando que “o verdadeiro perdão vai além das contagens ou limitações” (6). No contexto, tais palavras não implicavam ainda, pelo menos para a audiência de Jesus, no perdão à base de seu sacrifício expiatório, pois este ainda não havia ocorrido. Mas na teologia pós-ascensão, é impossível desagregar perdão do poder purificador do sangue de Cristo. Assim, Paulo podia dizer:

“Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós.” (7)

“Antes, sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou.” (8)

No primeiro texto, “perdoai-vos” está em paralelo com “suportai-vos”, título do próximo capítulo desta obra. Tal “perdoai-vos” insere-se numa sequência de várias virtudes e qualidades que os colossenses são exortados a “vestir”, entre elas a misericórdia, a bondade, humildade, mansidão, longanimidade e o amor. (9) Portanto, perdoar uns aos outros constitui para Paulo e para toda Igreja de Cristo como uma ação de suma importância para o bem-estar de seus membros, e certamente daqueles que ainda serão convertidos. No segundo texto acima, dirigido aos Efésios, ser benigno e compassivo está em paralelismo com “perdoando-vos uns aos outros”. Perdoar, de fato, reflete o querer o bem, a misericórdia, a compaixão, o bom coração moldado pelo caráter de Jesus Cristo. Por isso, Paulo compara: Deve-se perdoar assim como Deus perdoou em Cristo. A palavra grega para “perdoai” aqui é “charizomenoi”, que vem da palavra “cháris” (graça). Assim, ADAMS e STAMPS, chegam à óbvia conclusão de que “perdoar a alguém significa mostrar-lhe graça, isto é, perdoar livre e bondosamente e sem relutância e rancor.” (10) Por quê? Porque foi exatamente desta maneira que Deus nos perdoou e tem perdoado em Cristo, o modelo perfeito de perdão para todos os filhos de Deus se inspirarem a melhorar seus relacionamentos pessoais.

POR QUE PERDOAR UNS AOS OUTROS?

Uma primeira razão para o perdão advém do seguinte raciocínio: O Livro Sagrado do Cristianismo, a Bíblia, revela que todos pecaram (11) e que se alguém declarar não ter pecado é um mentiroso. (12) Deus se revela disposto a perdoar, por ser ele compassivo e misericordioso. (13) E o apóstolo Paulo exorta os cristãos em Éfeso a tornarem-se imitadores de Deus. (14) Certamente, todo cristão imita a Deus quando perdoa a seu próximo. E seria hipocrisia buscar o perdão de Deus e não perdoar o semelhante. (15) Disse Jesus: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”.[16]

Em segundo lugar, liberar o perdão evidencia o que amamos a nós mesmos e que nos importamos até mesmo com nossa saúde física e espiritual. Alivia da mágoa e dos ressentimentos nutridos contra o ofensor. Tais sentimentos corroem aos poucos a alma, tirando o sono, a paz interior e desvia o cristão do seu foco – Jesus Cristo. O perdão revela, portanto, o desejo de ser feliz daquele que perdoa.

Em terceiro lugar, a prática do perdão favorece uma melhor compreensão mútua. O que perdoa arrazoa sobre os motivos pelos quais foi ofendido: A imperfeição humana, as fraquezas alheias, o ambiente sócio-cultural em que o ofensor vive. E o ofensor, ao saber que magoou alguém e foi perdoado, refletirá no exemplo que seu irmão e amigo lhe deu, imitando a Deus.

Em quarto lugar, perdoar no sentido bíblico evidencia a conversão a Cristo. Embora até mesmo os ateus possam afirmar que perdoam, mas será que o fazem setenta vezes sete por dia, ou seja, sempre? Somente um coração transformado pelo Espírito Santo é capaz de desconsiderar e esquecer faltas repetitivas e graves, tanto de ofensas culposas quanto dolosas. Por isso, CHAMPLIN afirma, ao comentar Efésios 4:32, que “ninguém pode estar convertido e, portanto, haver sido perdoado por Deus, se se nega a perdoar aos outros”. [17]

Em quinto lugar, a prática do perdão resulta em reconciliação com Deus e com o próximo. De fato, o não perdoar indica a falta de amor para com o próximo. E se alguém não ama a quem tem visto, como pode amar a Deus, a quem não tem visto? [18] Se não ama a Deus por não perdoar a seu irmão, precisa reconciliar-se com seu irmão e com Deus. Além disso, não constituiria em exagero afirmar que o ofendido, quando não há perdão, afasta-se de Deus porque em sua mente e coração lhe nascem e são cultivadas as obras da carne, entre elas as inimizades, o ciúmes, a discórdia, as dissensões, as facções e as invejas. [19]

Em sexto lugar, onde há perdão de uns para com os outros, há crescimento espiritual. Um casamento feliz, uma família segundo o coração de Deus, uma igreja que Deus sempre quis é a união de bons perdoadores. Assim, os cristãos crescem na fé porque o perdão facilita a ação do Espírito Santo de Deus na vida cristã. Embora surjam problemas de personalidade, o perdão genuíno demonstra que as faltas cometidas contra o próximo são infinitamente pequenas diante da certeza as salvação em Cristo Jesus.

CONCLUSÃO

O exercício do perdão iniciou-se na história da humanidade desde a queda do homem no pecado. Deus proveu um descendente que esmagará o originador do pecado, [20] e este foi Jesus Cristo. Conforme CHAMPLIN afirma, “o perdão que recebemos da parte de Deus, por intermédio de Cristo, é destacado como o padrão que nos compete seguir em nossas relações com o próximo”. [21] Neste capítulo, observou-se a importância de se perdoar uns aos outros e o que se evita quando não há o perdão. De fato, muitas famílias se rompem pela falta dele. Muitas igrejas vivem em conflitos internos, quando não externos com seus escândalos peculiares, devido à falta da prática do perdão. Por isso, os cristãos agradecem a Deus pelo valioso ensino bíblico de imitarmos a Deus em liberar o perdão. - Fernando Galli, 12 de junho de 2010



BIBLIOGRAFIA


[1] DICIONÁRIO AURÉLIO. Verbete “Perdão”.

[2] ALEXANDER, T. Desmond & ROSNER, Brian S. Novo Dicionário de Teologia Bíblica. Página 1021. Editora Vida Acadêmica. São Paulo. 2009.

[3] VINE, W. E. & UNGER, Merril F. & WRITE JR, WILLIAM. Dicionário VINE. Páginas 867, 868. Editora CPAD. 3ª. Edição. 2003.

[4] BÍBLIA. Mateus 6:12.

[5] BÍBLIA. Mateus 18:22.

[6] UNGER, Merrill Frederick. Manual Bíblico Unger. Página 384. Editora Vida Nova. São Paulo. 2008.

[7] BÍBLIA. Colossenses 3:13.

[8] BÍBLIA. Efésios 4:32.

[9] BÍBLIA. Colossenses 3:12-15.

[10] ADAMS, J. Wesley e STAMPS, Donald C. Comentário Bíblico Pentecostal. Novo Testamento. Editado por French L. Arrington e Roger Stronsad. Página 1251. 2ª. Edição. CPAD. 2004.

[11] BÍBLIA. Romanos 3:23.

[12] BÍBLIA. 1 João 1:8.

[13] BÍBLIA. Salmo 86:5.

[14] BÍBLIA. Efésios 5:1.

[15] A Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal faz o seguinte comentário, sobre Colossenses 3:13: “A chave para perdoarmos aos outros é lembrarmo-nos de quanto Deus tem nos perdoado. Você considera difícil perdoar a alguém que o prejudicou um pouco, mesmo sabendo que Deus o perdoou por tantas transgressões? Perceber o amor e o perdão infinitos de Deus pode ajudá-lo a amar e a perdoar aos outros.” – Página 1680. Editora CPAD. São Paulo. 2004.

[16] BÍBLIA. Mateus 5:7.

[17] CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Volume 4. Página 614. Editora Hagnos. 2005.

[18] BÍBLIA. 1 João 4:20.

[19] BÍBLIA. Gálatas 5:19-21.

[20] BÍBLIA. GÊNESIS 3:15.

[21] CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Volume 4. Página 615.

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